28 de dez de 2007

A4

“Depois da confusão toda, raptamos um laptop e descemos. Eu não sabia da existência daqueles níveis subterrâneos, fui seguindo a multidão até eles. Ligavam a cidade toda por debaixo da terra. Havia um mapa no começo do túnel, um mapa eletrônico, uma projeção num quadro em branco. Como diabos faríamos pra decorar aquilo? Esqueci os celulares e, ironicamente, não havia câmera fotográfica comigo.

‘Calma! Isso é fácil. Vê-me o laptop ai.’ Ele digitou umas loucuras lá tão rápido que seus dedos embaçaram na minha visão míope. Em 6,3798 segundos tínhamos os 2Mb do mapa em ‘nosso’ laptop. ‘Esse PC aqui é dos bons. Bem caro por sinal, inclusive lá no Japão. Mas esses Macs atuam melhor pra trabalhar com vídeos e tals... E também...’ Tive que interrompê-lo pois ali ia começar um discurso científico sobre os computadores da Mac e não tínhamos muito tempo.

O mapa apontava uma entrada para a casa dos meus pais. Morei lá minha vida quase toda e nunca tive notícia de tal entrada. Chegamos lá em poucos minutos. A casa, apesar de bem perto do maior local de incidência dos lasers, estava intacta. O corredor alçapão levava até o meu quarto. Meus pais estavam acuados no canto da sala, temerosos.

Peguei uma mochila e enchi de comida. Peguei também uma das minhas câmeras fotográficas – tinha batalhado demasiadamente para tê-la – que era 28 Giga Pixels, ela fotografava nitidamente até as crateras da lua. Era meu ‘xodó’, não poderia nem considerar a remota hipótese de deixá-la pra trás.

Minha mãe pegou mantimentos também e meu pai a coisa mais valiosa dele: o gato Toluil. O gatinho já estava velho mas ainda era tenaz. Tínhamos outra gatinha, Xena, mas ela morreu há alguns anos, dormindo feito um bebê.

Ouvia-se o barulho do metrô, a buzina. Ele sempre se atrasava mas naquele dia, por ironia do destino, ele estava bem pontual. Outra explosão...Pobres pessoas, digo até pobres literalmente, alguns tinham somente a passagem do metrô e algumas sacolas com comidas que compraram com as esmolas do dia.

Não estava lá, vendo o metrô explodindo, mas imaginei a cena. ‘Olha! Eu consegui acessar as câmeras de segurança dos ônibus e dos aviões comerciais!’ disse meu amigo. Abrimos e deixamos alguns vídeos carregando enquanto descíamos de volta aos túneis: eu, meu amigo, meus pais e o gato. Era um milagre aqueles dispositivos todos ainda funcionarem..."

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